5 de outubro de 2014 § Deixe um comentário

Um domingo que começa com eu, às 8h, empunhando um pé-de-cabra para tentar abrir a tampa de um bueiro enferrujado e emperrado onde a minha chave foi zombeteiramente se enfiar merece terminar com Lasier e Heinze – aquele Heinze – eleitos. Que dia.

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João Vitória

19 de setembro de 2014 § Deixe um comentário

Era um índio cru,
de garganta de ouro.
Por sinal,
quando cantava
fechava os olhos como quem olha
para dentro de si mesmo.
De olhos fechados tinha um ar de morto.
Sua voz doía,
parecia coração, raiz de alma.
Vinha de longe, em silêncio…

Urutau solito,
o índio cru cantou de amor até morrer.

Isolino Leal

Protesto

1 de julho de 2013 § Deixe um comentário

Tão irônico. Logo nestes dias, uma brigadiana me conquista. Se não é maldade do bichinho coração comigo, então não sei o que é. Mas pode contar pra moça que por ela até largo as bandeiras (que nunca levantei), até desisto da revolução (que não sei se vem), até deixo a marcha (que eu já deixei). Avisa a moça que, por ela, arranco a farda por amor, não por ideologia.

Uma carta mal-intencionada

13 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

Eu tenho uma fronha favorita. É listrada, vermelha e branca. Não lembro quem me deu, nem quando eu a ganhei – não que faça muito tempo que eu a tenho, eu só não lembro. Adoro ela principalmente por que ela alucina meus olhos. Olho para ela e as cores vibram, mexem, pulsam. É algo estroboscópico. É algo incrível. Mas ela começou a rasgar. Um dia, encostei a cabeça e ouvi o barulho. No seguinte, já havia um grande rasgo. Agora, não há mais como esconder: são os últimos dias dela. Queria que tu visse essa fronha, há tempos quis partilhar a maravilha dela contigo. Mas já não há mais muito tempo. Eu tenho uma fronha favorita. E tu corre o risco de nunca chegar a vê-la.
(Corre, garota)

30 de dezembro de 2012 § Deixe um comentário

Se eu te dissesse um dia
– amo-te! – do meu olival,
que farias, amor meu?
Cravar-me-ia um punhal!
(se ouvisses)

Federico Garcia Lorca

Mulheres (3)

Confesso

2 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Fraco,
padeço.
Em teus braços
desapareço.

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Carona

14 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Porto Alegre sob chuva, vento frio e forte. Segue o rapaz pela avenida escura da noite e clara da luz dos carros e das casas. De vez em quando um ônibus passa perto e ameaça jorrar a água duma poça. Ele, contudo, nada percebe, a cabeça voa longe. No cruzamento, ela aparece, molhada, linda em sua morenice, tentando inutilmente escapar da chuva. E ele, solícito:

“Quer carona no meu guarda-chuva?”

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