ê, saudade

26 de agosto de 2010 § 3 Comentários

Certa vez uma moça acordou no meio da noite, sobressaltada. Sentia seu corpo morno, sentia um peso que não era seu. Levantou-se, sem saber porque, deu um passo, sem saber como. E deu-o como se fosse a primeira vez que o fazia.

A este passo seguiu-se outro e mais outro. Assim, tão de repente como despertara, caminhava. Era pouco, mas já podia dizer que criara coragem de andar. Afinal, poucas coisas são tão difíceis quanto caminhar no escuro. E, veja só, parecia estar feliz naquele momento. Cada pé contra o chão era um beijo de amor, e era disso que ela precisava. Sem nem notar, já estava correndo.

Contudo, não se pode fugir a contratempos. Aos poucos, notou que seu corpo cansava. A moça, enfim, esqueceu da felicidade dos passos e entregou-se à fatalidade do incômodo. Fora pega pelo seu pior inimigo: ela mesma. Se ainda fosse voar, em vez de caminhar…

Voltou e fez com que tudo parecesse como é para os comuns: um sonho. Dessa forma não correria mais o risco de cansar-se novamente. Deu-se por contente com uma ilusão (sem tigres, nem coleópteros).

(esse texto foi escrito há um bom tempo. Foi enviado por imeil para uma guria que ficou pelo caminho. “ê, saudade” era o que estava escrito no campo “Assunto”)

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24 de agosto de 2010 § Deixe um comentário

Cartazes de filmes cubanos

Quando nos roubaram a taça

21 de agosto de 2010 § 3 Comentários

Já se vão 5 anos, quase. O Inter enfrentou o Corinthians em São Paulo, num jogo que foi quase uma final, num jogo que foi retrato do Campeonato Brasileiro daquele ano. O Inter jogou muito melhor e iria ganhar. Iria, se não estivesse enfrentando o Corinthians. Iria, se Márcio Rezende de Freitas não expulsasse Tinga por sofrer um pênalti.

Não era só a taça que nos era dolorosamente roubada das mãos. Era a esperança dos colorados sendo destruída. Cresci querendo ver o Inter vencer algum campeonato maior que o Gauchão. Querendo ter, finalmente, uma grande conquista pra comemorar. Queria ver meu time entre os melhores. Queria gritar “Campeão” com orgulho. Parecia que ia ser em 2005 que isso ia mudar. Não foi.

Quando vi o pênalti no Tinga cheguei a pensar: acabou. Nunca mais chegaremos até aqui. Fomos campeões e nos roubaram. Roubaram o que restava de alegria nos colorados. Trouxeram à tona a dor de amar esse clube. A dor de ter resistido e não ter feito como tantos que trocaram o Inter pelo Grêmio por que este vencia mais. Eu não pude fazer isso. Simplesmente porque amor não se escolhe. Não consegui largar o Inter e, naquele jogo contra o Corinthians, achei que seria obrigado a sofrer, eternamente, por isso.

O Inter contrariava seu próprio hino que diz “O teu presente diz tudo, trazendo à torcida alegres emoções”. O presente era uma merda. Os nossos títulos estavam no passado. Os gremistas diziam “Quem vive de passado é museu”. Agora, ironicamente, os próprios gremistas falam de seu passado. E o presente do Inter diz tudo, o presente do Inter nos traz alegres emoções.

Já não sinto mais aquela dor terrível após os jogos. Não há mais aquela vontade de não ver ninguém, não fazer coisa alguma, recolher-se ao quarto para nunca mais sair. A paixão que faz uma derrota tão dolorosa é a mesma que faz uma vitória tão boa. É ter passado por tanta coisa ruim que me faz tão feliz agora. Comemoro este título lembrando do que ficou pra trás. Das derrotas. Das tristezas. O título se torna muito melhor quando lembramos que isso já pareceu impossível. Quando lembramos que, um dia, um pênalti já me fez pensar que eu sofreria eternamente.

Somos bicampeões da América.

Amanhã

1 de agosto de 2010 § 2 Comentários

Logo, quando as cervejas e os sanduíches tiverem caído em seus devidos lugares, quando o sono for capaz de dar fim a esta noite de sábado, vou me encostar no travesseiro e, como sempre, rever o dia. Mais um jogado pela janela. Afinal, toda noite eu penso que amanhã eu vou fazer algo que valha a pena. Mas não, não faço.

Amanhã, se possível, eu vou levantar tarde. Como dormi demais, vou ter dor de cabeça. Não vou passar roupa, não vou lavar louça. A torneira vai continuar pingando. Não vou ver os filmes que tenho pra ver, nem ler os livros que tenho pra ler, muito menos fazer aquela centena de tarefas que tenho que fazer ontem.

Em resumo: eu vou me decepcionar comigo. Ciclo interminável: eu me decepciono, finjo que vou fazer diferente, mas na hora tenho preguiça ou incapacidade. E aí me decepciono de novo. Quem sabe eu deveria levantar cedo, fazer o mate e ir pra rua. Só voltar à noite, pra dormir. Zanzar pela cidade e viver mais verdadeiramente. Ver mais gente. É ter gente à minha volta que faz um dia ser bom – desde que as pessoas não sejam muito melhores que eu, porque aí eu me decepciono comigo de novo.

Quem sabe esse seja o motivo para eu, desde pequeno, sonhar em ser escritor. Não me venham com lorotas, é fácil sim. Fácil pra quem sabe escrever. Porque quem é escritor mesmo só vai pondo no papel o que pensa. O seu esforço é melhorar ainda mais. Queria uma vida assim, de escritores, pintores, músicos, artistas: viver do seu dom. Não estou aí pra horários, compromissos, obrigações.

Talvez seja por isso que Bukowski é tão bom.

Boa noite.

Onde estou?

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