Papo de Índio

29 de setembro de 2010 § Deixe um comentário

veiu uns ômi de saia preta
cheiu di caxinha e pó branco
qui eles disserum qui chamava açucrí.
aí eles falarum e nós fechamu a cara.
depois eles arrepetirum e nós fechamu o corpo.
aí eles insistirum e nós comemu eles.

Chacal

20 de setembro de 2010 § Deixe um comentário

O ápice de minha vida

17 de setembro de 2010 § 14 Comentários

Já houve muitas professoras por aí. Nenhuma, porém, como a Minha Professora de Alemão. Quem a conheceu já está suspirando agora, tenho certeza. Só o nome dela  já faz qualquer homem ter certeza de que a única paixão possível no mundo é a Minha Professora de Alemão.

A Minha Professora de Alemão é a mais bela loira de olhos azuis que já deu aula por aí. Abundante de perfeições, exuberante em tudo. Foi ela que me proporcionou ser, um dia, o homem mais invejado da Terra. O ápice da minha vida.

A Minha Professora de Alemão era a rainha dos moleques do internato mas, infelizmente, não dava pra qualquer um. Eu fui parar na sua turma meio por acaso. Tudo bem, não foi por acaso. Eu colei na prova de aptidão em alemão (sim, eu sou um idiota). Só que o cara de quem eu colei foi parar no nível mais avançado. Não cheguei a tanto, mas cheguei num nível no qual não entendia nada. Entretanto, não fui capaz de largar a turma. Simplesmente porque, naquela turma, eu poderia ver a Minha Professora de Alemão.

Um dia, iríamos fazer um passeio até a Capital. Uma tarde de puro gozo germânico no Instituto Goethe. Para fazer o transporte, contrataram um micro-ônibus. Eu sempre fui daqueles que faziam questão de sentar no fundo. Infelizmente, naquele dia, fui o último a chegar. Quando entrei, todos os últimos lugares estavam ocupados. Sentados neles, meus colegas riam, soberbos. Resignado, sentei no primeiro banco.

Foi então que entrou a Minha Professora de Alemão. Desvaneceu-se o mundo e pra mim nada mais havia que aqueles lábios que se mexiam e diziam palavras que eu não compreendia. Segundo me disseram, ela dava as instruções de como funcionaria nossa tarde. Ela estava bem à minha frente. Quando o ônibus fez uma curva mais brusca, a Minha Professora de Alemão perdeu o equilíbrio e caiu sentada…

no meu colo, óbvio.

Ela logo levantou-se, pedindo desculpas, ao que eu respondi: “não, professora, sempre que quiser…” Virei meu rosto vagarosamente, com um sorriso gigante demonstrando minha infinita glória para os meus colegas que assistiam atônitos do mesmo lugar donde antes riram de mim. Dizem que, por duas semanas, não consegui parar de sorrir.

E eu nunca mais fui tão feliz como naquele curto momento.

Quando quase acabou o mundo

10 de setembro de 2010 § 10 Comentários

Ano passado foi posto em atividade o Grande Colisor de Hádrons, ou LHC, lá na França. O dia não lembro exatamente, mas sei que foi às 4h, horário de Brasília. Na época, circulou o boato que a colisão de prótons poderia acarretar no fim do mundo. Aproveitei para fazer uma brincadeira.

Após a janta do internato, aproveitando que todos os moradores estavam reunidos naquele momento, quem quisesse podia dar avisos. Antes da janta, avisei o plantão que queria falar. Assim feito, depois que todos haviam jantado, o plantão me autorizou a falar. Levantei-me e disse, mais ou menos assim:

“Talvez nem todos saibam, mas nesta madrugada, por volta das quatro horas, será ativado o Grande Colisor de Hádrons. Ele irá colidir prótons e, dentre os possíveis resultados, o mundo pode acabar. Então eu queria pedir aqui que todos aproveitem esta noite para dizer a quem ama o que sente, para dizer aos amigos o quanto são indispensáveis. Assim sendo, digo aos meus amigos aqui presentes que os amo muito, e que fui muito feliz por todos os momentos que passei ao lado de vocês.”

Em seguida, houve uma grande variedade de reações. Primeiro aquela típica “do que esse maluco está falando?”. Após, surgem as primeiras risadas e, em seguida, uma grande leva delas. E eu imaginei que fosse terminar por aí. Não. Na saída, era possível ver olhos lacrimejados. Se de rir ou de medo não sei, mas que havia choro ali, havia. Tive de responder a muitas pessoas sobre o que era o tal do LHC. E, também, tive de dar muitos e muitos abraços.

Incrivelmente, minha brincadeira sensibilizou a muitos. Não eram todos agindo como eu, Marquitos e Mc Ricardo, unicamente querendo dar risadas (inclusive combinamos de acordar às 4h pra ver se o mundo acabava, mas ninguém levantou). Muitos realmente saíram assustados, declarando amizades por aí afora. Foi um verdadeiro festival de abraços. Os cristãos mais exaltados me olhavam com uma ira demoníaca nos olhos, como se eu estivesse torcendo para que os humanos fossem mais rápidos e acabassem com o plano divino do arrebatamento.

O mundo não chegou a acabar, é verdade. O LHC até quebrou, pouco depois. A tal colisão foi adiada. Para 2012, dizem as más línguas. Restou uma divertida memória, alguns bons abraços. E aqueles cristãos puderam dormir tranquilos sabendo que ainda virá o dia em que Deus os levará para junto dEle.

(Esse texto foi escrito ano passado. Lembrei dele pois há dois anos atrás o LHC era criado.)

A morte de Laura

1 de setembro de 2010 § 6 Comentários

Dizem que a maioria das memórias que temos da infância é inventada. Lembro-me de, na gloriosa Ibirubá, estar numa praça e ver, dobrando a esquina, um Fiat 147 azul-calcinha com uma gigantesca caixa-de-som no teto tocando Ilariê da Xuxa. Esta lembrança, do tempo que eu era um nanico loiro, é a única que tenho do tempo em que vivi em Ibirubá. E aí vem os cientistas querendo roubá-la de mim, dizendo que ela é, quase que com certeza, uma invenção minha. Puta sacanagem.

Porém, não é essa a lembrança que quero contar. É outra, também lá dos meus tempos de pimpolho (aí já me metamorfoseando de loiro pra castanho). E, sendo assim, também passível de questionamento quanto a sua veracidade. Mas é o seguinte:

Há muitos anos, numa cidade que prefiro não nomear, eu vivia tranquilo, ainda não consciente do mundo e de seus defeitos. Para mim a vida era, como para tantas outras crianças, brincar e tentar comer o máximo de doces possível. Eu frequentava uma escola situada no alto de um morro, imponente e altaneira. E nos bons tempos de pré-escola eu e meus colegas não nos prendíamos a unicamente os meninos jogarem futebol e brincarem de carrinho dum lado e as meninas brincarem de boneca de outro. Não, nós éramos apressados. Nós namorávamos, sim senhor. Namoro de criança, veja bem.

Uma colega minha chamava-se Laura. À época, o sonho de consumo de qualquer garoto de 4 anos. A mais desejada do berçário. Obviamente, a minha namorada. Eu era, no bom passado, invejado.

Certo dia, Laura passou mal durante nosso recreio. Foi algo bem grave, pois lembro que ela estava deitada sobre nossa quadra de futebol (que insolência!) e que as professoras correram para socorrê-la. Imediatamente, uma legião de preocupados pimpolhos correu em minha direção querendo saber que faria eu, afinal era minha namorada que lá estava sofrendo, moribunda, vendo o fim chegar, oh céus!, que faria eu?

Segundos de silêncio. Eu refleti. Muni-me de um ar de sábio, e proferi minha decisão:

– Se a Laura morrer, namorarei a Cândida.

Os que me ouviram se agitaram. Não tanto pela frase (menos Cândida, é claro, cuja face ruborizou-se), mais pelo fato de que, na quadra, Laura deu sinais de recuperação. Aparentemente, fora somente um susto, e ela já ia sendo levada para a enfermaria, e caminhando. Novamente os olhos voltaram-se para mim. Refleti novamente (era muita emoção para um recreio só). E sentenciei:

– Mesmo que Laura não morra, namorarei Cândida.

Assim foi. Laura não morreu. Aliás, foi minha colega por todo o período em que estudei naquele colégio. Cândida tornou-se, sim, minha namorada. Quanto a mim, acredito que não tenha me tornado mais romântico que isso.

Só espero que não tenha inventado essa lembrança. Seria uma decepção enorme.

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