A morte de Laura

1 de setembro de 2010 § 6 Comentários

Dizem que a maioria das memórias que temos da infância é inventada. Lembro-me de, na gloriosa Ibirubá, estar numa praça e ver, dobrando a esquina, um Fiat 147 azul-calcinha com uma gigantesca caixa-de-som no teto tocando Ilariê da Xuxa. Esta lembrança, do tempo que eu era um nanico loiro, é a única que tenho do tempo em que vivi em Ibirubá. E aí vem os cientistas querendo roubá-la de mim, dizendo que ela é, quase que com certeza, uma invenção minha. Puta sacanagem.

Porém, não é essa a lembrança que quero contar. É outra, também lá dos meus tempos de pimpolho (aí já me metamorfoseando de loiro pra castanho). E, sendo assim, também passível de questionamento quanto a sua veracidade. Mas é o seguinte:

Há muitos anos, numa cidade que prefiro não nomear, eu vivia tranquilo, ainda não consciente do mundo e de seus defeitos. Para mim a vida era, como para tantas outras crianças, brincar e tentar comer o máximo de doces possível. Eu frequentava uma escola situada no alto de um morro, imponente e altaneira. E nos bons tempos de pré-escola eu e meus colegas não nos prendíamos a unicamente os meninos jogarem futebol e brincarem de carrinho dum lado e as meninas brincarem de boneca de outro. Não, nós éramos apressados. Nós namorávamos, sim senhor. Namoro de criança, veja bem.

Uma colega minha chamava-se Laura. À época, o sonho de consumo de qualquer garoto de 4 anos. A mais desejada do berçário. Obviamente, a minha namorada. Eu era, no bom passado, invejado.

Certo dia, Laura passou mal durante nosso recreio. Foi algo bem grave, pois lembro que ela estava deitada sobre nossa quadra de futebol (que insolência!) e que as professoras correram para socorrê-la. Imediatamente, uma legião de preocupados pimpolhos correu em minha direção querendo saber que faria eu, afinal era minha namorada que lá estava sofrendo, moribunda, vendo o fim chegar, oh céus!, que faria eu?

Segundos de silêncio. Eu refleti. Muni-me de um ar de sábio, e proferi minha decisão:

– Se a Laura morrer, namorarei a Cândida.

Os que me ouviram se agitaram. Não tanto pela frase (menos Cândida, é claro, cuja face ruborizou-se), mais pelo fato de que, na quadra, Laura deu sinais de recuperação. Aparentemente, fora somente um susto, e ela já ia sendo levada para a enfermaria, e caminhando. Novamente os olhos voltaram-se para mim. Refleti novamente (era muita emoção para um recreio só). E sentenciei:

– Mesmo que Laura não morra, namorarei Cândida.

Assim foi. Laura não morreu. Aliás, foi minha colega por todo o período em que estudei naquele colégio. Cândida tornou-se, sim, minha namorada. Quanto a mim, acredito que não tenha me tornado mais romântico que isso.

Só espero que não tenha inventado essa lembrança. Seria uma decepção enorme.

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