Ismália

9 de novembro de 2010 § 2 Comentários

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

Alphonsus de Guimaraens

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Cecília

1 de novembro de 2010 § 3 Comentários

Um dia me perguntaram se eu preferia loiras ou morenas. Morenas, disse eu, convicto. Não posso deixar de lembrar disso antes de contar a história de mais uma loira.

Há uns quatro anos eu conheci Cecília. Era uma loira bonita, a mais bonita da escola. Além disso, era minha melhor amiga. Era com quem me confessava, com quem ria. E abraçava. Muitos abraços. Afinal de contas, não éramos bons com as palavras – mesmo que tentássemos trocar um ou outro bilhete.

Éramos dois bobos. Ou namorados que não se beijavam, como haviam nos chamado.

Aos poucos percebi que as coisas mudavam. Lendo Machado de Assis, encontrei a explicação. Anotei a frase num caderno, entre frases de Marx, Che e Galeano:

Não era mulher que do primeiro lance fizesse apaixonar um homem, mas com o tempo tinha o condão de insinuar-se-lhe no coração.

Machado de Assis, História de uma fita azul

Depois disso, me perdi. Que coisa mais ridícula um piá que se acha apaixonado. Fazia de tudo para ser notado, lembrado. Um dia, eu, que não tenho habilidade manual alguma, resolvi fazer um presente para Cecília. Um marca-páginas. Dum lado, desenhei o nome dela, do outro escrevi uns poemas tolos. Entreguei-o, esperando que nossa relação mudasse a partir dali.

Mudou, sim, mas no final do ano. Resolvi dizer pra ela o que sentia. O medo de ter feito uma bobagem pareceu se dissipar quando ela aproximou seu rosto e, levemente, encostou seus lábios nos meus. Encostou e logo recuou. Com cabeça baixa, ela disse que aquilo estava errado, que poderíamos estragar nossa amizade. Disse que não queria se distanciar de mim.

E se distanciou. A amizade, antes tão forte, tornou-se uma qualquer. Tempos depois, ela arranjou um namorado que não gostava de mim. Por isso, já não podia mais conversar comigo. Eu nunca consegui aceitar. Um dia, fui na biblioteca. Entre milhares de livros, escolhi um. Não lembro qual era. Quando o abri, encontrei, abandonado, o marca-páginas que eu fizera.

Onde estou?

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