Gaúcho tem pilcha roubada

25 de março de 2011 § Deixe um comentário

“Um fronteiriço à moda antiga, de 59 anos, morador de São Borja, que gosta de se pilchar com botas, bombacha, chapéu de aba larga e guaiaca, foi vítima de uma ação típica dos tempos modernos: na segunda-feira um trio de ladrões tirou-lhe R$ 35,00 mais os documentos. Insatisfeitos, ainda o obrigaram a entregar a guaiaca, o par de botas e o chapéu. Ou seja, além do prejuízo financeiro, o índio velho ficou impossibilitado de cultuar a tradição do pago.”

Notícia publicada pelo Correio do Povo no dia 25/03/2009. Dá até vontade de ser jornalista.

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Um trompetista dos piores

24 de março de 2011 § Deixe um comentário

Fomos sabotados pela chuva. O mate na praça teve de ser deixado de lado para buscar abrigo embaixo de uma árvore. Salvamo-nos dalguns pingos, mas não de todos. Seria uma cena linda prum romance, se ali houvesse romance. Houvera, uma vez. Não mais.

Infelizmente, eu não era o bandoneonista que ela queria: era um trompetista, e dos piores. Trompete é instrumento grosso, barulhento. O bandoneon é poético, lamurioso, cantor de tango. Eu sonhava em tocar uma gaita, de cabeça baixa e com os cabelos sobre os olhos, num canto em que só ela me enxergasse. Mas eu, tímido, fui logo escolher um instrumento que não passa despercebido, que não se toca na penumbra.

Naquele dia, mais uma vez eu fingia ser o cara com quem ela sonhava. Procurava as palavras que ela queria ouvir, inventava as situações que ela gostaria de viver. E mentia, mentia sem parar. Não só pra ela como pra mim: insistia em culpar os outros por algo que eu sempre soube ser o culpado. Fui eu o responsável. Como sempre. Como tantas vezes.

(é como voltar à noite e esperar que alguém num Fusca amarelo pare ao meu lado e peça pra conversar)

Embaixo da árvore ríamos um pouquinho da situação (eu já não sabia mais despertar boas risadas). Pela primeira vez eu reparava que ela tinha um quê de Jane Fonda. Engraçado, bem eu que tanto tempo passava só olhando para ela nunca notara nisso. Ela, por sua vez, observava meu nervosismo: eu procurava incessantemente algum assunto, sabendo que não suportaria um silêncio.

O mais difícil, no fim das contas, foi aceitar e anunciar que a hora havia chegado, que precisava ir. Vi que, sim, eu resistiria a um silêncio: mesmo que ficasse aflito, ela ainda estaria ali ao lado. Quando chegasse em casa, eu poderia ter todas as palavras que quisesse, mas estaria sozinho. Só teria uma dor que eu forçosamente esquecia. Precisei fingir, pôr a mão direita no bolso da calça, pôr um sorriso seguro na cara e falar “bom te ver, tchau”.

E enquanto eu ia embora, La Negra me dizia: todo cambia.

Onde estou?

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