Três Marias

23 de setembro de 2011 § Deixe um comentário

Não se sabe quem construiu a casa das Três-Marias. Feita de cavacos de laranjeira, nas janelas madeira de macieira. O telhado de telhas feitas nas coxas de escravos.

A casa não devia este nome à bonita flor três-marias, mas a abrigar três bonitas moças, jovens flores de nome Maria.

A Primeira Maria, de cabelos vermelhos e vasto sorriso, tinha para si um cômodo na frente da casa. A janela dava para a rua e quem por ali passava podia sempre ver Primeira Maria sentada numa grande cadeira de couro vermelho com algum livro nas mãos. Um livro nas mãos, centenas em volta. Primeira Maria chamava seu cômodo de Minha Biblioteca.

Foi um escritor com ares de intelectual – dizem que era argentino. Levou a Primeira Maria consigo e nunca mais se ouviu falar dela – embora haja suspeitas de que algumas das personagens dos contos que ele escreveu dali pra frente são, na verdade, retratos de sua amada.

Sozinha no sótão, escondia-se à sombra duma santa a Segunda Maria. Sorria pouco, mas muito sentia: sofria o sofrimento de um mundo inteiro. Sangrava as chagas alheias e sabia que só havia uma solução: sagrar sua vida a serviço do Senhor. Salvou sua alma da safadeza do mundo, numa silenciosa sexta-feira de setembro.

E havia ainda Última Maria. Sem talento pra cousa alguma – ou pouco pra todas as coisas. Sem beleza exorbitante, nem inteligência além da conta. Sem centenas de amigos, mas com uma meia-dúzia que valia por muitos. Sorria a quem lhe sorria e cantava, às vezes, quando estava sozinha. Última Maria era bem quista na vizinhança, recebia flores de Dona Tácita, a velha-louca do bairro. Participava da quermesse e sempre ajudava na cozinha. Ria das bobagens dos garotos da rua e não se negava a ajudar na brincadeira. Última Maria era um amor de pessoa – e nunca foi amada por ninguém.

Não confessava a tristeza que a abatia de vez em quando. Principalmente depois que as outras Marias se foram e que a casa de Três-Marias só guardou o nome. Os ecos que ouvia eram o que mais a incomodava: sinal de muito vazio. Conversava em voz alta pra fingir companhia – ria das próprias piadas. Chamava a si mesma de boba, cabeça-nas-nuvens. Dizia que só estava querendo apressar as coisas, que logo aí estaria o Seu Homem e que ele, ao custo de tanta demora, seria o melhor que ela podia querer.

Mas o Seu Homem não chegava. Última Maria ia sendo consumida pelos romances que criava em sua cabeça e por aquele pranto que vem à noite por sentir o frio e não ter quem a envolva, quem lhe dê um último beijo de boa-noite e fique ali deitado ao lado dela, tendo-a em seus braços, fazendo carinho com seu quieto amor. Sabia que de nada lhe valia lamentar-se, nem tampouco sentir pena de si mesma. Ia ter fim, a solidão ia ter fim!

Quis ser esperançosa, mas isso nunca fora de seu feitio. Inventar possíveis pretendentes passou a ser seu divertimento. E lá vinha Ernesto, futuro advogado, futuro juiz, quem sabe? Ou Seu Gomes, que não era bonito, mas tinha um bom emprego e era carinhoso como só ele. Por vezes, era Vadinho, aquele baiano, amigo do Dr. Amado, era viciado no jogo mas tinha fogo correndo nas veias e a fazia se sentir mulher mesmo, daquelas que fazem valer o tamanho da cama.

Última Maria se apegou à janela na qual um dia Primeira Maria se debruçara. Jogava ao ar mil sorrisos e olhares sempre que passava um homem com ares de solteiro. Entregava-se tanto a essa tarefa que virou motivo de troça nas redondezas: as risadas já não eram dos garotos cujas bobagens a divertiam; esses já haviam envelhecido. Eram agora os filhos desses garotos os que riam da velha-namoradeira-sem-vergonha pendurada na janela. Ela gritava que não era namoradeira, que não era sem-vergonha! E ela percebia, enfim, que era velha, que fora consumida pelo tempo, pela tristeza, pela solidão. Última Maria sentia-se a única infeliz no mundo todo. Rogava pragas a todos os homens, blasfemava, jurava ser castigo divino!

E então lembrou do antigo e humilde altarzinho que Segunda Maria fizera e ao qual tanto se devotara. Por onde andaria sua irmã? Em que cafundó desse mundo se enclausurara? Abriu o sótão tanto tempo esquecido, viu a santa, ainda no mesmo lugar. Riu-se, lembrando que exigiu de Segunda Maria que deixasse a santa com ela, acreditando que a irmã desistiria da loucura de entrar pra Igreja se fosse obrigada a se separar de sua santinha. Não adiantou. Agora era Última Maria que se jogava aos pés da imagem, que se ajoelhava e pedia Deus, me ajude! minha Santinha, olhai por mim!

Os vizinhos ouviram um choro, depois berros. Houve barulho de louça se quebrando, houve barulho de vidro se espatifando no chão. Segundo dizem, o fogo começou pelo alto e logo se espalhou pela casa inteira. Um doce cheiro de laranjeira invadiu a rua, causando espanto nas gentes. Muitos correram com baldes cheios d’água na vã esperança de apagar as chamas. Alguns homens se ofereceram para entrar na casa e tentar resgatar a velha louca, mas nenhum pôde. Um último urro de Última Maria calou a todos. Com o derradeiro grito, cada um que via o infeliz espetáculo sentiu um pequeno pedaço da dor de Última Maria – e esse pedaço foi, para cada um, a maior dor que já sentira.

Ainda ouviu-se uma senhora comentar: “Lembram de Dona Tácita, a velha louca?”

Também aqui.

4 de setembro de 2011 § Deixe um comentário

O padre ensinou ao bugre
que o pão não era pão
era eucaristia.
Um dia faltou pão
o bugre comeu o padre
e a Igreja ficou vazia.

Luiz Coronel

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