João Vitória

19 de setembro de 2014 § Deixe um comentário

Era um índio cru,
de garganta de ouro.
Por sinal,
quando cantava
fechava os olhos como quem olha
para dentro de si mesmo.
De olhos fechados tinha um ar de morto.
Sua voz doía,
parecia coração, raiz de alma.
Vinha de longe, em silêncio…

Urutau solito,
o índio cru cantou de amor até morrer.

Isolino Leal

30 de dezembro de 2012 § Deixe um comentário

Se eu te dissesse um dia
– amo-te! – do meu olival,
que farias, amor meu?
Cravar-me-ia um punhal!
(se ouvisses)

Federico Garcia Lorca

Mulheres (3)

Confesso

2 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Fraco,
padeço.
Em teus braços
desapareço.

também aqui.

1 de outubro de 2011 § Deixe um comentário

Para a forca hia um homem: e outro que o encontrou lhe dice: Que he isto senhor fulano, assim vay v.m.? E o enforcado respondeo: Yo no voy, estes me lleban.

Pe. Manuel Velho

4 de setembro de 2011 § Deixe um comentário

O padre ensinou ao bugre
que o pão não era pão
era eucaristia.
Um dia faltou pão
o bugre comeu o padre
e a Igreja ficou vazia.

Luiz Coronel

Soneto

18 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: – “Ai nada somos,
pois ela se morreu silente e fria…”
E pondo os olhos nela como pomos
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la,
Entre lírios e pétalas de rosa.

E os meus sonhos de amor serão defuntos…
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?”

Alphonsus de Guimaraens

vê, homem

1 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

tiveste bons sonhos, homem? acordaste serenamente? alegraram-te as cores do novo dia? e as notícias no jornal, são felizes?

sim, são. mesmo que falem de mortes e roubos, desastres e injustiças. são boas as notícias! elas te dizem: vê, homem, ainda está o mundo lá fora! vê, homem, as coisas continuam em seus lugares! vê que a noite não levou nada embora. vê, homem, este mundo é real: abraça-o!

pois que pena ser real! que mal serviço ao coração da gente querer tudo tão existente. a realidade te diminui, homem! não aceita o que ela diz! o mais humano é querer ser sobre-humano: faça-o! cospe na cara do jornalista que diz ‘assim foi’. esbraveja: vade retro! grita que ele não vai te aprisionar dizendo que é assim que é e é só assim que pode ser. liberta, homem, liberta!

mente, que isso te faz bem. mente, homem, que a mentira aviva a alma. conheço bem as almas. elas vivem em outros e muitos lugares. são mentiras. mentem, pois o que é a fantasia senão mentira? e sem a fantasia pode alguém viver? pode ser, sem fantasia, algo além de um carrancudo infeliz? um rancoroso malvado? um desalmado?

quando o jornalista te disser: vê, homem, é esta a verdade! tu dirás: vá longe com essa bobagem. peça dois goles de mentira, um dedo de falsidade. verás que dali nascerão todas as nossas histórias e alegrias. então teu coração estará feliz. abraça teu irmão e juntos bradem: às favas com a verdade! vê, homem, que aquele que te trouxer as notícias quer te prender a um mundo tedioso e acomodado. vê, homem, este é teu pior inimigo.

liberta, homem, liberta. sê feliz, homem.

(também aqui)

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