5 de outubro de 2014 § Deixe um comentário

Um domingo que começa com eu, às 8h, empunhando um pé-de-cabra para tentar abrir a tampa de um bueiro enferrujado e emperrado onde a minha chave foi zombeteiramente se enfiar merece terminar com Lasier e Heinze – aquele Heinze – eleitos. Que dia.

Protesto

1 de julho de 2013 § Deixe um comentário

Tão irônico. Logo nestes dias, uma brigadiana me conquista. Se não é maldade do bichinho coração comigo, então não sei o que é. Mas pode contar pra moça que por ela até largo as bandeiras (que nunca levantei), até desisto da revolução (que não sei se vem), até deixo a marcha (que eu já deixei). Avisa a moça que, por ela, arranco a farda por amor, não por ideologia.

Uma carta mal-intencionada

13 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

Eu tenho uma fronha favorita. É listrada, vermelha e branca. Não lembro quem me deu, nem quando eu a ganhei – não que faça muito tempo que eu a tenho, eu só não lembro. Adoro ela principalmente por que ela alucina meus olhos. Olho para ela e as cores vibram, mexem, pulsam. É algo estroboscópico. É algo incrível. Mas ela começou a rasgar. Um dia, encostei a cabeça e ouvi o barulho. No seguinte, já havia um grande rasgo. Agora, não há mais como esconder: são os últimos dias dela. Queria que tu visse essa fronha, há tempos quis partilhar a maravilha dela contigo. Mas já não há mais muito tempo. Eu tenho uma fronha favorita. E tu corre o risco de nunca chegar a vê-la.
(Corre, garota)

Anarquia nos sentidos

20 de janeiro de 2012 § Deixe um comentário

Dizem por aí que certas pessoas confundem os sentidos: cheiram as cores, veem os sons. Bizarro, mas eu queria ser assim ao menos por um dia. Uma vez na vida sentir o gosto de Evil Woman ou ouvir um vermelho. Se um dia vendesse a alma ao diabo, talvez fosse esse meu desejo: quero a anarquia nos meus sentidos.

Ainda não cheguei a esse ponto, mas faço as coisas do meu jeito. Se não posso trocar a visão pelo tato, troco um gosto pelo outro. Para isso, conto com minha memória. Ela é ruim, é verdade, porém também  gosta um pouco de mim. Com extrema bondade, mistura meus sentidos através de lembranças dispersas e desfocadas. Sei que aquilo não foi bem assim – que aquilo não era a realidade. Mas quem se importa com a realidade? Minha memória faz o trabalho dum bom roteirista e dá a meu filme os tons e sons que deveriam fazer parte das minhas cenas.

Por exemplo: anos atrás, quando morava em outra cidade, eu dependia do trem. Todos os dias, ia e vinha, uma hora, uma hora e pouco de viagem. Eu, que sempre achei perda de tempo ficar alguns minutos sem fazer nada (e, pior, perdido em pensamentos perigosos), nunca deixava de carregar um livro junto comigo. Quando possível, quando havia espaço e uma posição confortável para isso, eu passava a viagem inteira lendo. Foram muitos livros, a maioria deles inteiramente lidos no trem. Entretanto, um em especial ficou marcado em minhas lembranças.

A filha do inca, de Menotti del Picchia. Era uma edição bem antiga – até porque acredito que ele nunca mais tenha sido editado. Também pudera, é fraco. Uma ficção científica que, de novo, provavelmente só trouxe a ambientação: a serra do Caiapó. No fim das contas, é um texto previsível – ou, quem sabe, os milhares de filmes de ficção científica produzidos nos anos que se seguiram à publicação desse livro tenham tornado óbvios os acontecimentos da história.

O que me encantou no livro foi, na verdade, o cheiro. Nos primeiros dias, era um cheiro comum, de livro velho e empoeirado. Depois de algum tempo, no entanto, o cheiro do livro confundiu-se com o do metal trabalhando enquanto o trem andava. Eu podia sentir naquelas folhas as rodas correndo sobre os trilhos. Não importava onde eu estivesse, em qualquer lugar eu sentia o odor dos trilhos do trem ao abrir aquelas páginas. Era como se aquele papel velho tivesse sido impregnado com o metal. Eu gostava daquilo mais do que gostava de andar no trem, mais do que gostei do livro.

Há poucos dias, o paladar resolveu entrar na brincadeira. Afinal, divertido mesmo é beber vinho com gosto de mulher. A cada gole, o sabor dos beijos de uma garota, os beijos que naquela noite ela me negara. Nada mais justo, não? Paguei pelo que comprei: um vinho para ganhar os beijos dela. Fiquei bêbado, manchei de grená a camisa com promessas nunca cumpridas. Natural que os gostos se misturassem, já que mulheres sabem tão bem brincar com nossos sentidos, brincar conosco. Mexer, revirar, confundir tudo. Era de se esperar que tantos erros terminassem em ressaca. Nossa benção é saber que é simples a solução para um vinho ruim: compra-se outro.

Carona

14 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Porto Alegre sob chuva, vento frio e forte. Segue o rapaz pela avenida escura da noite e clara da luz dos carros e das casas. De vez em quando um ônibus passa perto e ameaça jorrar a água duma poça. Ele, contudo, nada percebe, a cabeça voa longe. No cruzamento, ela aparece, molhada, linda em sua morenice, tentando inutilmente escapar da chuva. E ele, solícito:

“Quer carona no meu guarda-chuva?”

Também aqui.

Três Marias

23 de setembro de 2011 § Deixe um comentário

Não se sabe quem construiu a casa das Três-Marias. Feita de cavacos de laranjeira, nas janelas madeira de macieira. O telhado de telhas feitas nas coxas de escravos.

A casa não devia este nome à bonita flor três-marias, mas a abrigar três bonitas moças, jovens flores de nome Maria.

A Primeira Maria, de cabelos vermelhos e vasto sorriso, tinha para si um cômodo na frente da casa. A janela dava para a rua e quem por ali passava podia sempre ver Primeira Maria sentada numa grande cadeira de couro vermelho com algum livro nas mãos. Um livro nas mãos, centenas em volta. Primeira Maria chamava seu cômodo de Minha Biblioteca.

Foi um escritor com ares de intelectual – dizem que era argentino. Levou a Primeira Maria consigo e nunca mais se ouviu falar dela – embora haja suspeitas de que algumas das personagens dos contos que ele escreveu dali pra frente são, na verdade, retratos de sua amada.

Sozinha no sótão, escondia-se à sombra duma santa a Segunda Maria. Sorria pouco, mas muito sentia: sofria o sofrimento de um mundo inteiro. Sangrava as chagas alheias e sabia que só havia uma solução: sagrar sua vida a serviço do Senhor. Salvou sua alma da safadeza do mundo, numa silenciosa sexta-feira de setembro.

E havia ainda Última Maria. Sem talento pra cousa alguma – ou pouco pra todas as coisas. Sem beleza exorbitante, nem inteligência além da conta. Sem centenas de amigos, mas com uma meia-dúzia que valia por muitos. Sorria a quem lhe sorria e cantava, às vezes, quando estava sozinha. Última Maria era bem quista na vizinhança, recebia flores de Dona Tácita, a velha-louca do bairro. Participava da quermesse e sempre ajudava na cozinha. Ria das bobagens dos garotos da rua e não se negava a ajudar na brincadeira. Última Maria era um amor de pessoa – e nunca foi amada por ninguém.

Não confessava a tristeza que a abatia de vez em quando. Principalmente depois que as outras Marias se foram e que a casa de Três-Marias só guardou o nome. Os ecos que ouvia eram o que mais a incomodava: sinal de muito vazio. Conversava em voz alta pra fingir companhia – ria das próprias piadas. Chamava a si mesma de boba, cabeça-nas-nuvens. Dizia que só estava querendo apressar as coisas, que logo aí estaria o Seu Homem e que ele, ao custo de tanta demora, seria o melhor que ela podia querer.

Mas o Seu Homem não chegava. Última Maria ia sendo consumida pelos romances que criava em sua cabeça e por aquele pranto que vem à noite por sentir o frio e não ter quem a envolva, quem lhe dê um último beijo de boa-noite e fique ali deitado ao lado dela, tendo-a em seus braços, fazendo carinho com seu quieto amor. Sabia que de nada lhe valia lamentar-se, nem tampouco sentir pena de si mesma. Ia ter fim, a solidão ia ter fim!

Quis ser esperançosa, mas isso nunca fora de seu feitio. Inventar possíveis pretendentes passou a ser seu divertimento. E lá vinha Ernesto, futuro advogado, futuro juiz, quem sabe? Ou Seu Gomes, que não era bonito, mas tinha um bom emprego e era carinhoso como só ele. Por vezes, era Vadinho, aquele baiano, amigo do Dr. Amado, era viciado no jogo mas tinha fogo correndo nas veias e a fazia se sentir mulher mesmo, daquelas que fazem valer o tamanho da cama.

Última Maria se apegou à janela na qual um dia Primeira Maria se debruçara. Jogava ao ar mil sorrisos e olhares sempre que passava um homem com ares de solteiro. Entregava-se tanto a essa tarefa que virou motivo de troça nas redondezas: as risadas já não eram dos garotos cujas bobagens a divertiam; esses já haviam envelhecido. Eram agora os filhos desses garotos os que riam da velha-namoradeira-sem-vergonha pendurada na janela. Ela gritava que não era namoradeira, que não era sem-vergonha! E ela percebia, enfim, que era velha, que fora consumida pelo tempo, pela tristeza, pela solidão. Última Maria sentia-se a única infeliz no mundo todo. Rogava pragas a todos os homens, blasfemava, jurava ser castigo divino!

E então lembrou do antigo e humilde altarzinho que Segunda Maria fizera e ao qual tanto se devotara. Por onde andaria sua irmã? Em que cafundó desse mundo se enclausurara? Abriu o sótão tanto tempo esquecido, viu a santa, ainda no mesmo lugar. Riu-se, lembrando que exigiu de Segunda Maria que deixasse a santa com ela, acreditando que a irmã desistiria da loucura de entrar pra Igreja se fosse obrigada a se separar de sua santinha. Não adiantou. Agora era Última Maria que se jogava aos pés da imagem, que se ajoelhava e pedia Deus, me ajude! minha Santinha, olhai por mim!

Os vizinhos ouviram um choro, depois berros. Houve barulho de louça se quebrando, houve barulho de vidro se espatifando no chão. Segundo dizem, o fogo começou pelo alto e logo se espalhou pela casa inteira. Um doce cheiro de laranjeira invadiu a rua, causando espanto nas gentes. Muitos correram com baldes cheios d’água na vã esperança de apagar as chamas. Alguns homens se ofereceram para entrar na casa e tentar resgatar a velha louca, mas nenhum pôde. Um último urro de Última Maria calou a todos. Com o derradeiro grito, cada um que via o infeliz espetáculo sentiu um pequeno pedaço da dor de Última Maria – e esse pedaço foi, para cada um, a maior dor que já sentira.

Ainda ouviu-se uma senhora comentar: “Lembram de Dona Tácita, a velha louca?”

Também aqui.

Sobre um sonho

27 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Faz poucos dias, sonhei que tocava tamborim. Num bloco de carnaval. E sorria muito e o samba era um do Adoniran. Que eu acho que nem tamborim tem. Mas em sonho pode, né? E assim que terminou o Adoniran nós – eu e os milhares, ou centenas, de rostos amorfos suados e sorridentes – cantamos:

Eu vou brincar o ano inteiro nesse carnaval/Não vou deixar que a cinza venha e suje o meu quintal

Foi aí que eu já não tocava tamborim, mas violão e já não estava na multidão, mas sozinho, enfim. E tudo que eu queria era gente à minha volta, que tocassem tamborins e suassem, que tivessem sorrisos em caras amorfas e fizessem coro ao meu canto/lamento:

Eu quero é botar meu bloco na rua/Brincar, botar pra gemer

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ou acho que sonhei, já que várias vezes eu sonho e no próprio sonho eu penso “eu já sonhei isso/com essa pessoa” e quando eu acordo eu reflito e chego à conclusão que não, que aquela fora a primeira vez que eu sonhara com aquilo/aquela pessoa. Mas é mais bonito acreditar que eu já sonhara com ela.

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ainda bem que se vestia do mesmo jeito que no outro sonho, pois sua voz era diferente, o rosto também, os trejeitos também, o nome também (mas eu não lembro qual era o nome). Eu levantei e cruzei o salão onde agora estávamos, peguei sua mão e a convidei para dançar.

Não era valsa, nem polca. Não era sequer uma rancheira. Era Asturias, tocada por um taciturno violeiro. E eu juro, ah! eu juro, que éramos o casal mais belo que já dançara qualquer música em qualquer salão. Éramos rodopios, saia girando, meu passo conduzindo a moça. Só nos assistiam gárgulas na escuridão. A música fazia-se infinita e aquele amor que eu sentia, que era febril e inconsequente e que poderia levar adiante aqueles giros eternamente, tornou-se triste e cansado e então eu vi: que ela já não era quem eu sonhara, que não havia música no salão, que tampouco era eu quem sonhava…

era eu, o último trompetista, solitário, a tocar a decadente marcha de carnaval que eu mesmo compusera, numa sarjeta enquanto o sol nascia. Esquecendo tudo e todos que antes ao meu lado estavam. Suados, amorfos, sorridentes. Era eu, o derradeiro homem a ver o derradeiro céu. Era eu, eternamente só, cantando

Se você jurar que me tem amor/Eu posso me regenerar

Onde estou?

Você está navegando atualmente a Causos categoria em Loco de especial.