Protesto

1 de julho de 2013 § Deixe um comentário

Tão irônico. Logo nestes dias, uma brigadiana me conquista. Se não é maldade do bichinho coração comigo, então não sei o que é. Mas pode contar pra moça que por ela até largo as bandeiras (que nunca levantei), até desisto da revolução (que não sei se vem), até deixo a marcha (que eu já deixei). Avisa a moça que, por ela, arranco a farda por amor, não por ideologia.

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Uma carta mal-intencionada

13 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

Eu tenho uma fronha favorita. É listrada, vermelha e branca. Não lembro quem me deu, nem quando eu a ganhei – não que faça muito tempo que eu a tenho, eu só não lembro. Adoro ela principalmente por que ela alucina meus olhos. Olho para ela e as cores vibram, mexem, pulsam. É algo estroboscópico. É algo incrível. Mas ela começou a rasgar. Um dia, encostei a cabeça e ouvi o barulho. No seguinte, já havia um grande rasgo. Agora, não há mais como esconder: são os últimos dias dela. Queria que tu visse essa fronha, há tempos quis partilhar a maravilha dela contigo. Mas já não há mais muito tempo. Eu tenho uma fronha favorita. E tu corre o risco de nunca chegar a vê-la.
(Corre, garota)

Confesso

2 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Fraco,
padeço.
Em teus braços
desapareço.

também aqui.

Sobre um sonho

27 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Faz poucos dias, sonhei que tocava tamborim. Num bloco de carnaval. E sorria muito e o samba era um do Adoniran. Que eu acho que nem tamborim tem. Mas em sonho pode, né? E assim que terminou o Adoniran nós – eu e os milhares, ou centenas, de rostos amorfos suados e sorridentes – cantamos:

Eu vou brincar o ano inteiro nesse carnaval/Não vou deixar que a cinza venha e suje o meu quintal

Foi aí que eu já não tocava tamborim, mas violão e já não estava na multidão, mas sozinho, enfim. E tudo que eu queria era gente à minha volta, que tocassem tamborins e suassem, que tivessem sorrisos em caras amorfas e fizessem coro ao meu canto/lamento:

Eu quero é botar meu bloco na rua/Brincar, botar pra gemer

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ou acho que sonhei, já que várias vezes eu sonho e no próprio sonho eu penso “eu já sonhei isso/com essa pessoa” e quando eu acordo eu reflito e chego à conclusão que não, que aquela fora a primeira vez que eu sonhara com aquilo/aquela pessoa. Mas é mais bonito acreditar que eu já sonhara com ela.

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ainda bem que se vestia do mesmo jeito que no outro sonho, pois sua voz era diferente, o rosto também, os trejeitos também, o nome também (mas eu não lembro qual era o nome). Eu levantei e cruzei o salão onde agora estávamos, peguei sua mão e a convidei para dançar.

Não era valsa, nem polca. Não era sequer uma rancheira. Era Asturias, tocada por um taciturno violeiro. E eu juro, ah! eu juro, que éramos o casal mais belo que já dançara qualquer música em qualquer salão. Éramos rodopios, saia girando, meu passo conduzindo a moça. Só nos assistiam gárgulas na escuridão. A música fazia-se infinita e aquele amor que eu sentia, que era febril e inconsequente e que poderia levar adiante aqueles giros eternamente, tornou-se triste e cansado e então eu vi: que ela já não era quem eu sonhara, que não havia música no salão, que tampouco era eu quem sonhava…

era eu, o último trompetista, solitário, a tocar a decadente marcha de carnaval que eu mesmo compusera, numa sarjeta enquanto o sol nascia. Esquecendo tudo e todos que antes ao meu lado estavam. Suados, amorfos, sorridentes. Era eu, o derradeiro homem a ver o derradeiro céu. Era eu, eternamente só, cantando

Se você jurar que me tem amor/Eu posso me regenerar

vê, homem

1 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

tiveste bons sonhos, homem? acordaste serenamente? alegraram-te as cores do novo dia? e as notícias no jornal, são felizes?

sim, são. mesmo que falem de mortes e roubos, desastres e injustiças. são boas as notícias! elas te dizem: vê, homem, ainda está o mundo lá fora! vê, homem, as coisas continuam em seus lugares! vê que a noite não levou nada embora. vê, homem, este mundo é real: abraça-o!

pois que pena ser real! que mal serviço ao coração da gente querer tudo tão existente. a realidade te diminui, homem! não aceita o que ela diz! o mais humano é querer ser sobre-humano: faça-o! cospe na cara do jornalista que diz ‘assim foi’. esbraveja: vade retro! grita que ele não vai te aprisionar dizendo que é assim que é e é só assim que pode ser. liberta, homem, liberta!

mente, que isso te faz bem. mente, homem, que a mentira aviva a alma. conheço bem as almas. elas vivem em outros e muitos lugares. são mentiras. mentem, pois o que é a fantasia senão mentira? e sem a fantasia pode alguém viver? pode ser, sem fantasia, algo além de um carrancudo infeliz? um rancoroso malvado? um desalmado?

quando o jornalista te disser: vê, homem, é esta a verdade! tu dirás: vá longe com essa bobagem. peça dois goles de mentira, um dedo de falsidade. verás que dali nascerão todas as nossas histórias e alegrias. então teu coração estará feliz. abraça teu irmão e juntos bradem: às favas com a verdade! vê, homem, que aquele que te trouxer as notícias quer te prender a um mundo tedioso e acomodado. vê, homem, este é teu pior inimigo.

liberta, homem, liberta. sê feliz, homem.

(também aqui)

9 de fevereiro de 2011 § Deixe um comentário

Toda noite, a caminho do colégio, passo por um parque de diversões. Não sei como, até agora, resisti a trocar a cadeira da sala de aula pela cadeira da roda-gigante.

2009

Chorei na Av. Independência

14 de dezembro de 2010 § 1 comentário

Quando a única coisa que eu conseguia dizer era “Morra, Alecsandro”, um negro, um gordo bonachão, com uma velha e surrada camiseta do Inter, passou por mim e, escondendo a dor atrás de um sorriso tímido, me disse:

“Não foi dessa vez. Deixa para a próxima…”

Foi quando eu não pude mais segurar. Chorei no meio da Avenida Independência.

Onde estou?

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