Protesto

1 de julho de 2013 § Deixe um comentário

Tão irônico. Logo nestes dias, uma brigadiana me conquista. Se não é maldade do bichinho coração comigo, então não sei o que é. Mas pode contar pra moça que por ela até largo as bandeiras (que nunca levantei), até desisto da revolução (que não sei se vem), até deixo a marcha (que eu já deixei). Avisa a moça que, por ela, arranco a farda por amor, não por ideologia.

Uma carta mal-intencionada

13 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

Eu tenho uma fronha favorita. É listrada, vermelha e branca. Não lembro quem me deu, nem quando eu a ganhei – não que faça muito tempo que eu a tenho, eu só não lembro. Adoro ela principalmente por que ela alucina meus olhos. Olho para ela e as cores vibram, mexem, pulsam. É algo estroboscópico. É algo incrível. Mas ela começou a rasgar. Um dia, encostei a cabeça e ouvi o barulho. No seguinte, já havia um grande rasgo. Agora, não há mais como esconder: são os últimos dias dela. Queria que tu visse essa fronha, há tempos quis partilhar a maravilha dela contigo. Mas já não há mais muito tempo. Eu tenho uma fronha favorita. E tu corre o risco de nunca chegar a vê-la.
(Corre, garota)

Confesso

2 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Fraco,
padeço.
Em teus braços
desapareço.

também aqui.

Anarquia nos sentidos

20 de janeiro de 2012 § Deixe um comentário

Dizem por aí que certas pessoas confundem os sentidos: cheiram as cores, veem os sons. Bizarro, mas eu queria ser assim ao menos por um dia. Uma vez na vida sentir o gosto de Evil Woman ou ouvir um vermelho. Se um dia vendesse a alma ao diabo, talvez fosse esse meu desejo: quero a anarquia nos meus sentidos.

Ainda não cheguei a esse ponto, mas faço as coisas do meu jeito. Se não posso trocar a visão pelo tato, troco um gosto pelo outro. Para isso, conto com minha memória. Ela é ruim, é verdade, porém também  gosta um pouco de mim. Com extrema bondade, mistura meus sentidos através de lembranças dispersas e desfocadas. Sei que aquilo não foi bem assim – que aquilo não era a realidade. Mas quem se importa com a realidade? Minha memória faz o trabalho dum bom roteirista e dá a meu filme os tons e sons que deveriam fazer parte das minhas cenas.

Por exemplo: anos atrás, quando morava em outra cidade, eu dependia do trem. Todos os dias, ia e vinha, uma hora, uma hora e pouco de viagem. Eu, que sempre achei perda de tempo ficar alguns minutos sem fazer nada (e, pior, perdido em pensamentos perigosos), nunca deixava de carregar um livro junto comigo. Quando possível, quando havia espaço e uma posição confortável para isso, eu passava a viagem inteira lendo. Foram muitos livros, a maioria deles inteiramente lidos no trem. Entretanto, um em especial ficou marcado em minhas lembranças.

A filha do inca, de Menotti del Picchia. Era uma edição bem antiga – até porque acredito que ele nunca mais tenha sido editado. Também pudera, é fraco. Uma ficção científica que, de novo, provavelmente só trouxe a ambientação: a serra do Caiapó. No fim das contas, é um texto previsível – ou, quem sabe, os milhares de filmes de ficção científica produzidos nos anos que se seguiram à publicação desse livro tenham tornado óbvios os acontecimentos da história.

O que me encantou no livro foi, na verdade, o cheiro. Nos primeiros dias, era um cheiro comum, de livro velho e empoeirado. Depois de algum tempo, no entanto, o cheiro do livro confundiu-se com o do metal trabalhando enquanto o trem andava. Eu podia sentir naquelas folhas as rodas correndo sobre os trilhos. Não importava onde eu estivesse, em qualquer lugar eu sentia o odor dos trilhos do trem ao abrir aquelas páginas. Era como se aquele papel velho tivesse sido impregnado com o metal. Eu gostava daquilo mais do que gostava de andar no trem, mais do que gostei do livro.

Há poucos dias, o paladar resolveu entrar na brincadeira. Afinal, divertido mesmo é beber vinho com gosto de mulher. A cada gole, o sabor dos beijos de uma garota, os beijos que naquela noite ela me negara. Nada mais justo, não? Paguei pelo que comprei: um vinho para ganhar os beijos dela. Fiquei bêbado, manchei de grená a camisa com promessas nunca cumpridas. Natural que os gostos se misturassem, já que mulheres sabem tão bem brincar com nossos sentidos, brincar conosco. Mexer, revirar, confundir tudo. Era de se esperar que tantos erros terminassem em ressaca. Nossa benção é saber que é simples a solução para um vinho ruim: compra-se outro.

Sobre um sonho

27 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Faz poucos dias, sonhei que tocava tamborim. Num bloco de carnaval. E sorria muito e o samba era um do Adoniran. Que eu acho que nem tamborim tem. Mas em sonho pode, né? E assim que terminou o Adoniran nós – eu e os milhares, ou centenas, de rostos amorfos suados e sorridentes – cantamos:

Eu vou brincar o ano inteiro nesse carnaval/Não vou deixar que a cinza venha e suje o meu quintal

Foi aí que eu já não tocava tamborim, mas violão e já não estava na multidão, mas sozinho, enfim. E tudo que eu queria era gente à minha volta, que tocassem tamborins e suassem, que tivessem sorrisos em caras amorfas e fizessem coro ao meu canto/lamento:

Eu quero é botar meu bloco na rua/Brincar, botar pra gemer

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ou acho que sonhei, já que várias vezes eu sonho e no próprio sonho eu penso “eu já sonhei isso/com essa pessoa” e quando eu acordo eu reflito e chego à conclusão que não, que aquela fora a primeira vez que eu sonhara com aquilo/aquela pessoa. Mas é mais bonito acreditar que eu já sonhara com ela.

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ainda bem que se vestia do mesmo jeito que no outro sonho, pois sua voz era diferente, o rosto também, os trejeitos também, o nome também (mas eu não lembro qual era o nome). Eu levantei e cruzei o salão onde agora estávamos, peguei sua mão e a convidei para dançar.

Não era valsa, nem polca. Não era sequer uma rancheira. Era Asturias, tocada por um taciturno violeiro. E eu juro, ah! eu juro, que éramos o casal mais belo que já dançara qualquer música em qualquer salão. Éramos rodopios, saia girando, meu passo conduzindo a moça. Só nos assistiam gárgulas na escuridão. A música fazia-se infinita e aquele amor que eu sentia, que era febril e inconsequente e que poderia levar adiante aqueles giros eternamente, tornou-se triste e cansado e então eu vi: que ela já não era quem eu sonhara, que não havia música no salão, que tampouco era eu quem sonhava…

era eu, o último trompetista, solitário, a tocar a decadente marcha de carnaval que eu mesmo compusera, numa sarjeta enquanto o sol nascia. Esquecendo tudo e todos que antes ao meu lado estavam. Suados, amorfos, sorridentes. Era eu, o derradeiro homem a ver o derradeiro céu. Era eu, eternamente só, cantando

Se você jurar que me tem amor/Eu posso me regenerar

vê, homem

1 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

tiveste bons sonhos, homem? acordaste serenamente? alegraram-te as cores do novo dia? e as notícias no jornal, são felizes?

sim, são. mesmo que falem de mortes e roubos, desastres e injustiças. são boas as notícias! elas te dizem: vê, homem, ainda está o mundo lá fora! vê, homem, as coisas continuam em seus lugares! vê que a noite não levou nada embora. vê, homem, este mundo é real: abraça-o!

pois que pena ser real! que mal serviço ao coração da gente querer tudo tão existente. a realidade te diminui, homem! não aceita o que ela diz! o mais humano é querer ser sobre-humano: faça-o! cospe na cara do jornalista que diz ‘assim foi’. esbraveja: vade retro! grita que ele não vai te aprisionar dizendo que é assim que é e é só assim que pode ser. liberta, homem, liberta!

mente, que isso te faz bem. mente, homem, que a mentira aviva a alma. conheço bem as almas. elas vivem em outros e muitos lugares. são mentiras. mentem, pois o que é a fantasia senão mentira? e sem a fantasia pode alguém viver? pode ser, sem fantasia, algo além de um carrancudo infeliz? um rancoroso malvado? um desalmado?

quando o jornalista te disser: vê, homem, é esta a verdade! tu dirás: vá longe com essa bobagem. peça dois goles de mentira, um dedo de falsidade. verás que dali nascerão todas as nossas histórias e alegrias. então teu coração estará feliz. abraça teu irmão e juntos bradem: às favas com a verdade! vê, homem, que aquele que te trouxer as notícias quer te prender a um mundo tedioso e acomodado. vê, homem, este é teu pior inimigo.

liberta, homem, liberta. sê feliz, homem.

(também aqui)

Um trompetista dos piores

24 de março de 2011 § Deixe um comentário

Fomos sabotados pela chuva. O mate na praça teve de ser deixado de lado para buscar abrigo embaixo de uma árvore. Salvamo-nos dalguns pingos, mas não de todos. Seria uma cena linda prum romance, se ali houvesse romance. Houvera, uma vez. Não mais.

Infelizmente, eu não era o bandoneonista que ela queria: era um trompetista, e dos piores. Trompete é instrumento grosso, barulhento. O bandoneon é poético, lamurioso, cantor de tango. Eu sonhava em tocar uma gaita, de cabeça baixa e com os cabelos sobre os olhos, num canto em que só ela me enxergasse. Mas eu, tímido, fui logo escolher um instrumento que não passa despercebido, que não se toca na penumbra.

Naquele dia, mais uma vez eu fingia ser o cara com quem ela sonhava. Procurava as palavras que ela queria ouvir, inventava as situações que ela gostaria de viver. E mentia, mentia sem parar. Não só pra ela como pra mim: insistia em culpar os outros por algo que eu sempre soube ser o culpado. Fui eu o responsável. Como sempre. Como tantas vezes.

(é como voltar à noite e esperar que alguém num Fusca amarelo pare ao meu lado e peça pra conversar)

Embaixo da árvore ríamos um pouquinho da situação (eu já não sabia mais despertar boas risadas). Pela primeira vez eu reparava que ela tinha um quê de Jane Fonda. Engraçado, bem eu que tanto tempo passava só olhando para ela nunca notara nisso. Ela, por sua vez, observava meu nervosismo: eu procurava incessantemente algum assunto, sabendo que não suportaria um silêncio.

O mais difícil, no fim das contas, foi aceitar e anunciar que a hora havia chegado, que precisava ir. Vi que, sim, eu resistiria a um silêncio: mesmo que ficasse aflito, ela ainda estaria ali ao lado. Quando chegasse em casa, eu poderia ter todas as palavras que quisesse, mas estaria sozinho. Só teria uma dor que eu forçosamente esquecia. Precisei fingir, pôr a mão direita no bolso da calça, pôr um sorriso seguro na cara e falar “bom te ver, tchau”.

E enquanto eu ia embora, La Negra me dizia: todo cambia.

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