Anarquia nos sentidos

20 de janeiro de 2012 § Deixe um comentário

Dizem por aí que certas pessoas confundem os sentidos: cheiram as cores, veem os sons. Bizarro, mas eu queria ser assim ao menos por um dia. Uma vez na vida sentir o gosto de Evil Woman ou ouvir um vermelho. Se um dia vendesse a alma ao diabo, talvez fosse esse meu desejo: quero a anarquia nos meus sentidos.

Ainda não cheguei a esse ponto, mas faço as coisas do meu jeito. Se não posso trocar a visão pelo tato, troco um gosto pelo outro. Para isso, conto com minha memória. Ela é ruim, é verdade, porém também  gosta um pouco de mim. Com extrema bondade, mistura meus sentidos através de lembranças dispersas e desfocadas. Sei que aquilo não foi bem assim – que aquilo não era a realidade. Mas quem se importa com a realidade? Minha memória faz o trabalho dum bom roteirista e dá a meu filme os tons e sons que deveriam fazer parte das minhas cenas.

Por exemplo: anos atrás, quando morava em outra cidade, eu dependia do trem. Todos os dias, ia e vinha, uma hora, uma hora e pouco de viagem. Eu, que sempre achei perda de tempo ficar alguns minutos sem fazer nada (e, pior, perdido em pensamentos perigosos), nunca deixava de carregar um livro junto comigo. Quando possível, quando havia espaço e uma posição confortável para isso, eu passava a viagem inteira lendo. Foram muitos livros, a maioria deles inteiramente lidos no trem. Entretanto, um em especial ficou marcado em minhas lembranças.

A filha do inca, de Menotti del Picchia. Era uma edição bem antiga – até porque acredito que ele nunca mais tenha sido editado. Também pudera, é fraco. Uma ficção científica que, de novo, provavelmente só trouxe a ambientação: a serra do Caiapó. No fim das contas, é um texto previsível – ou, quem sabe, os milhares de filmes de ficção científica produzidos nos anos que se seguiram à publicação desse livro tenham tornado óbvios os acontecimentos da história.

O que me encantou no livro foi, na verdade, o cheiro. Nos primeiros dias, era um cheiro comum, de livro velho e empoeirado. Depois de algum tempo, no entanto, o cheiro do livro confundiu-se com o do metal trabalhando enquanto o trem andava. Eu podia sentir naquelas folhas as rodas correndo sobre os trilhos. Não importava onde eu estivesse, em qualquer lugar eu sentia o odor dos trilhos do trem ao abrir aquelas páginas. Era como se aquele papel velho tivesse sido impregnado com o metal. Eu gostava daquilo mais do que gostava de andar no trem, mais do que gostei do livro.

Há poucos dias, o paladar resolveu entrar na brincadeira. Afinal, divertido mesmo é beber vinho com gosto de mulher. A cada gole, o sabor dos beijos de uma garota, os beijos que naquela noite ela me negara. Nada mais justo, não? Paguei pelo que comprei: um vinho para ganhar os beijos dela. Fiquei bêbado, manchei de grená a camisa com promessas nunca cumpridas. Natural que os gostos se misturassem, já que mulheres sabem tão bem brincar com nossos sentidos, brincar conosco. Mexer, revirar, confundir tudo. Era de se esperar que tantos erros terminassem em ressaca. Nossa benção é saber que é simples a solução para um vinho ruim: compra-se outro.

Sobre um sonho

27 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Faz poucos dias, sonhei que tocava tamborim. Num bloco de carnaval. E sorria muito e o samba era um do Adoniran. Que eu acho que nem tamborim tem. Mas em sonho pode, né? E assim que terminou o Adoniran nós – eu e os milhares, ou centenas, de rostos amorfos suados e sorridentes – cantamos:

Eu vou brincar o ano inteiro nesse carnaval/Não vou deixar que a cinza venha e suje o meu quintal

Foi aí que eu já não tocava tamborim, mas violão e já não estava na multidão, mas sozinho, enfim. E tudo que eu queria era gente à minha volta, que tocassem tamborins e suassem, que tivessem sorrisos em caras amorfas e fizessem coro ao meu canto/lamento:

Eu quero é botar meu bloco na rua/Brincar, botar pra gemer

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ou acho que sonhei, já que várias vezes eu sonho e no próprio sonho eu penso “eu já sonhei isso/com essa pessoa” e quando eu acordo eu reflito e chego à conclusão que não, que aquela fora a primeira vez que eu sonhara com aquilo/aquela pessoa. Mas é mais bonito acreditar que eu já sonhara com ela.

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ainda bem que se vestia do mesmo jeito que no outro sonho, pois sua voz era diferente, o rosto também, os trejeitos também, o nome também (mas eu não lembro qual era o nome). Eu levantei e cruzei o salão onde agora estávamos, peguei sua mão e a convidei para dançar.

Não era valsa, nem polca. Não era sequer uma rancheira. Era Asturias, tocada por um taciturno violeiro. E eu juro, ah! eu juro, que éramos o casal mais belo que já dançara qualquer música em qualquer salão. Éramos rodopios, saia girando, meu passo conduzindo a moça. Só nos assistiam gárgulas na escuridão. A música fazia-se infinita e aquele amor que eu sentia, que era febril e inconsequente e que poderia levar adiante aqueles giros eternamente, tornou-se triste e cansado e então eu vi: que ela já não era quem eu sonhara, que não havia música no salão, que tampouco era eu quem sonhava…

era eu, o último trompetista, solitário, a tocar a decadente marcha de carnaval que eu mesmo compusera, numa sarjeta enquanto o sol nascia. Esquecendo tudo e todos que antes ao meu lado estavam. Suados, amorfos, sorridentes. Era eu, o derradeiro homem a ver o derradeiro céu. Era eu, eternamente só, cantando

Se você jurar que me tem amor/Eu posso me regenerar

Um trompetista dos piores

24 de março de 2011 § Deixe um comentário

Fomos sabotados pela chuva. O mate na praça teve de ser deixado de lado para buscar abrigo embaixo de uma árvore. Salvamo-nos dalguns pingos, mas não de todos. Seria uma cena linda prum romance, se ali houvesse romance. Houvera, uma vez. Não mais.

Infelizmente, eu não era o bandoneonista que ela queria: era um trompetista, e dos piores. Trompete é instrumento grosso, barulhento. O bandoneon é poético, lamurioso, cantor de tango. Eu sonhava em tocar uma gaita, de cabeça baixa e com os cabelos sobre os olhos, num canto em que só ela me enxergasse. Mas eu, tímido, fui logo escolher um instrumento que não passa despercebido, que não se toca na penumbra.

Naquele dia, mais uma vez eu fingia ser o cara com quem ela sonhava. Procurava as palavras que ela queria ouvir, inventava as situações que ela gostaria de viver. E mentia, mentia sem parar. Não só pra ela como pra mim: insistia em culpar os outros por algo que eu sempre soube ser o culpado. Fui eu o responsável. Como sempre. Como tantas vezes.

(é como voltar à noite e esperar que alguém num Fusca amarelo pare ao meu lado e peça pra conversar)

Embaixo da árvore ríamos um pouquinho da situação (eu já não sabia mais despertar boas risadas). Pela primeira vez eu reparava que ela tinha um quê de Jane Fonda. Engraçado, bem eu que tanto tempo passava só olhando para ela nunca notara nisso. Ela, por sua vez, observava meu nervosismo: eu procurava incessantemente algum assunto, sabendo que não suportaria um silêncio.

O mais difícil, no fim das contas, foi aceitar e anunciar que a hora havia chegado, que precisava ir. Vi que, sim, eu resistiria a um silêncio: mesmo que ficasse aflito, ela ainda estaria ali ao lado. Quando chegasse em casa, eu poderia ter todas as palavras que quisesse, mas estaria sozinho. Só teria uma dor que eu forçosamente esquecia. Precisei fingir, pôr a mão direita no bolso da calça, pôr um sorriso seguro na cara e falar “bom te ver, tchau”.

E enquanto eu ia embora, La Negra me dizia: todo cambia.

Cecília

1 de novembro de 2010 § 3 Comentários

Um dia me perguntaram se eu preferia loiras ou morenas. Morenas, disse eu, convicto. Não posso deixar de lembrar disso antes de contar a história de mais uma loira.

Há uns quatro anos eu conheci Cecília. Era uma loira bonita, a mais bonita da escola. Além disso, era minha melhor amiga. Era com quem me confessava, com quem ria. E abraçava. Muitos abraços. Afinal de contas, não éramos bons com as palavras – mesmo que tentássemos trocar um ou outro bilhete.

Éramos dois bobos. Ou namorados que não se beijavam, como haviam nos chamado.

Aos poucos percebi que as coisas mudavam. Lendo Machado de Assis, encontrei a explicação. Anotei a frase num caderno, entre frases de Marx, Che e Galeano:

Não era mulher que do primeiro lance fizesse apaixonar um homem, mas com o tempo tinha o condão de insinuar-se-lhe no coração.

Machado de Assis, História de uma fita azul

Depois disso, me perdi. Que coisa mais ridícula um piá que se acha apaixonado. Fazia de tudo para ser notado, lembrado. Um dia, eu, que não tenho habilidade manual alguma, resolvi fazer um presente para Cecília. Um marca-páginas. Dum lado, desenhei o nome dela, do outro escrevi uns poemas tolos. Entreguei-o, esperando que nossa relação mudasse a partir dali.

Mudou, sim, mas no final do ano. Resolvi dizer pra ela o que sentia. O medo de ter feito uma bobagem pareceu se dissipar quando ela aproximou seu rosto e, levemente, encostou seus lábios nos meus. Encostou e logo recuou. Com cabeça baixa, ela disse que aquilo estava errado, que poderíamos estragar nossa amizade. Disse que não queria se distanciar de mim.

E se distanciou. A amizade, antes tão forte, tornou-se uma qualquer. Tempos depois, ela arranjou um namorado que não gostava de mim. Por isso, já não podia mais conversar comigo. Eu nunca consegui aceitar. Um dia, fui na biblioteca. Entre milhares de livros, escolhi um. Não lembro qual era. Quando o abri, encontrei, abandonado, o marca-páginas que eu fizera.

20 de setembro de 2010 § Deixe um comentário

O ápice de minha vida

17 de setembro de 2010 § 14 Comentários

Já houve muitas professoras por aí. Nenhuma, porém, como a Minha Professora de Alemão. Quem a conheceu já está suspirando agora, tenho certeza. Só o nome dela  já faz qualquer homem ter certeza de que a única paixão possível no mundo é a Minha Professora de Alemão.

A Minha Professora de Alemão é a mais bela loira de olhos azuis que já deu aula por aí. Abundante de perfeições, exuberante em tudo. Foi ela que me proporcionou ser, um dia, o homem mais invejado da Terra. O ápice da minha vida.

A Minha Professora de Alemão era a rainha dos moleques do internato mas, infelizmente, não dava pra qualquer um. Eu fui parar na sua turma meio por acaso. Tudo bem, não foi por acaso. Eu colei na prova de aptidão em alemão (sim, eu sou um idiota). Só que o cara de quem eu colei foi parar no nível mais avançado. Não cheguei a tanto, mas cheguei num nível no qual não entendia nada. Entretanto, não fui capaz de largar a turma. Simplesmente porque, naquela turma, eu poderia ver a Minha Professora de Alemão.

Um dia, iríamos fazer um passeio até a Capital. Uma tarde de puro gozo germânico no Instituto Goethe. Para fazer o transporte, contrataram um micro-ônibus. Eu sempre fui daqueles que faziam questão de sentar no fundo. Infelizmente, naquele dia, fui o último a chegar. Quando entrei, todos os últimos lugares estavam ocupados. Sentados neles, meus colegas riam, soberbos. Resignado, sentei no primeiro banco.

Foi então que entrou a Minha Professora de Alemão. Desvaneceu-se o mundo e pra mim nada mais havia que aqueles lábios que se mexiam e diziam palavras que eu não compreendia. Segundo me disseram, ela dava as instruções de como funcionaria nossa tarde. Ela estava bem à minha frente. Quando o ônibus fez uma curva mais brusca, a Minha Professora de Alemão perdeu o equilíbrio e caiu sentada…

no meu colo, óbvio.

Ela logo levantou-se, pedindo desculpas, ao que eu respondi: “não, professora, sempre que quiser…” Virei meu rosto vagarosamente, com um sorriso gigante demonstrando minha infinita glória para os meus colegas que assistiam atônitos do mesmo lugar donde antes riram de mim. Dizem que, por duas semanas, não consegui parar de sorrir.

E eu nunca mais fui tão feliz como naquele curto momento.

19 de julho de 2010 Comentários desativados em

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