Carona

14 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Porto Alegre sob chuva, vento frio e forte. Segue o rapaz pela avenida escura da noite e clara da luz dos carros e das casas. De vez em quando um ônibus passa perto e ameaça jorrar a água duma poça. Ele, contudo, nada percebe, a cabeça voa longe. No cruzamento, ela aparece, molhada, linda em sua morenice, tentando inutilmente escapar da chuva. E ele, solícito:

“Quer carona no meu guarda-chuva?”

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1 de outubro de 2011 § Deixe um comentário

Para a forca hia um homem: e outro que o encontrou lhe dice: Que he isto senhor fulano, assim vay v.m.? E o enforcado respondeo: Yo no voy, estes me lleban.

Pe. Manuel Velho

Três Marias

23 de setembro de 2011 § Deixe um comentário

Não se sabe quem construiu a casa das Três-Marias. Feita de cavacos de laranjeira, nas janelas madeira de macieira. O telhado de telhas feitas nas coxas de escravos.

A casa não devia este nome à bonita flor três-marias, mas a abrigar três bonitas moças, jovens flores de nome Maria.

A Primeira Maria, de cabelos vermelhos e vasto sorriso, tinha para si um cômodo na frente da casa. A janela dava para a rua e quem por ali passava podia sempre ver Primeira Maria sentada numa grande cadeira de couro vermelho com algum livro nas mãos. Um livro nas mãos, centenas em volta. Primeira Maria chamava seu cômodo de Minha Biblioteca.

Foi um escritor com ares de intelectual – dizem que era argentino. Levou a Primeira Maria consigo e nunca mais se ouviu falar dela – embora haja suspeitas de que algumas das personagens dos contos que ele escreveu dali pra frente são, na verdade, retratos de sua amada.

Sozinha no sótão, escondia-se à sombra duma santa a Segunda Maria. Sorria pouco, mas muito sentia: sofria o sofrimento de um mundo inteiro. Sangrava as chagas alheias e sabia que só havia uma solução: sagrar sua vida a serviço do Senhor. Salvou sua alma da safadeza do mundo, numa silenciosa sexta-feira de setembro.

E havia ainda Última Maria. Sem talento pra cousa alguma – ou pouco pra todas as coisas. Sem beleza exorbitante, nem inteligência além da conta. Sem centenas de amigos, mas com uma meia-dúzia que valia por muitos. Sorria a quem lhe sorria e cantava, às vezes, quando estava sozinha. Última Maria era bem quista na vizinhança, recebia flores de Dona Tácita, a velha-louca do bairro. Participava da quermesse e sempre ajudava na cozinha. Ria das bobagens dos garotos da rua e não se negava a ajudar na brincadeira. Última Maria era um amor de pessoa – e nunca foi amada por ninguém.

Não confessava a tristeza que a abatia de vez em quando. Principalmente depois que as outras Marias se foram e que a casa de Três-Marias só guardou o nome. Os ecos que ouvia eram o que mais a incomodava: sinal de muito vazio. Conversava em voz alta pra fingir companhia – ria das próprias piadas. Chamava a si mesma de boba, cabeça-nas-nuvens. Dizia que só estava querendo apressar as coisas, que logo aí estaria o Seu Homem e que ele, ao custo de tanta demora, seria o melhor que ela podia querer.

Mas o Seu Homem não chegava. Última Maria ia sendo consumida pelos romances que criava em sua cabeça e por aquele pranto que vem à noite por sentir o frio e não ter quem a envolva, quem lhe dê um último beijo de boa-noite e fique ali deitado ao lado dela, tendo-a em seus braços, fazendo carinho com seu quieto amor. Sabia que de nada lhe valia lamentar-se, nem tampouco sentir pena de si mesma. Ia ter fim, a solidão ia ter fim!

Quis ser esperançosa, mas isso nunca fora de seu feitio. Inventar possíveis pretendentes passou a ser seu divertimento. E lá vinha Ernesto, futuro advogado, futuro juiz, quem sabe? Ou Seu Gomes, que não era bonito, mas tinha um bom emprego e era carinhoso como só ele. Por vezes, era Vadinho, aquele baiano, amigo do Dr. Amado, era viciado no jogo mas tinha fogo correndo nas veias e a fazia se sentir mulher mesmo, daquelas que fazem valer o tamanho da cama.

Última Maria se apegou à janela na qual um dia Primeira Maria se debruçara. Jogava ao ar mil sorrisos e olhares sempre que passava um homem com ares de solteiro. Entregava-se tanto a essa tarefa que virou motivo de troça nas redondezas: as risadas já não eram dos garotos cujas bobagens a divertiam; esses já haviam envelhecido. Eram agora os filhos desses garotos os que riam da velha-namoradeira-sem-vergonha pendurada na janela. Ela gritava que não era namoradeira, que não era sem-vergonha! E ela percebia, enfim, que era velha, que fora consumida pelo tempo, pela tristeza, pela solidão. Última Maria sentia-se a única infeliz no mundo todo. Rogava pragas a todos os homens, blasfemava, jurava ser castigo divino!

E então lembrou do antigo e humilde altarzinho que Segunda Maria fizera e ao qual tanto se devotara. Por onde andaria sua irmã? Em que cafundó desse mundo se enclausurara? Abriu o sótão tanto tempo esquecido, viu a santa, ainda no mesmo lugar. Riu-se, lembrando que exigiu de Segunda Maria que deixasse a santa com ela, acreditando que a irmã desistiria da loucura de entrar pra Igreja se fosse obrigada a se separar de sua santinha. Não adiantou. Agora era Última Maria que se jogava aos pés da imagem, que se ajoelhava e pedia Deus, me ajude! minha Santinha, olhai por mim!

Os vizinhos ouviram um choro, depois berros. Houve barulho de louça se quebrando, houve barulho de vidro se espatifando no chão. Segundo dizem, o fogo começou pelo alto e logo se espalhou pela casa inteira. Um doce cheiro de laranjeira invadiu a rua, causando espanto nas gentes. Muitos correram com baldes cheios d’água na vã esperança de apagar as chamas. Alguns homens se ofereceram para entrar na casa e tentar resgatar a velha louca, mas nenhum pôde. Um último urro de Última Maria calou a todos. Com o derradeiro grito, cada um que via o infeliz espetáculo sentiu um pequeno pedaço da dor de Última Maria – e esse pedaço foi, para cada um, a maior dor que já sentira.

Ainda ouviu-se uma senhora comentar: “Lembram de Dona Tácita, a velha louca?”

Também aqui.

4 de setembro de 2011 § Deixe um comentário

O padre ensinou ao bugre
que o pão não era pão
era eucaristia.
Um dia faltou pão
o bugre comeu o padre
e a Igreja ficou vazia.

Luiz Coronel

Sobre um sonho

27 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Faz poucos dias, sonhei que tocava tamborim. Num bloco de carnaval. E sorria muito e o samba era um do Adoniran. Que eu acho que nem tamborim tem. Mas em sonho pode, né? E assim que terminou o Adoniran nós – eu e os milhares, ou centenas, de rostos amorfos suados e sorridentes – cantamos:

Eu vou brincar o ano inteiro nesse carnaval/Não vou deixar que a cinza venha e suje o meu quintal

Foi aí que eu já não tocava tamborim, mas violão e já não estava na multidão, mas sozinho, enfim. E tudo que eu queria era gente à minha volta, que tocassem tamborins e suassem, que tivessem sorrisos em caras amorfas e fizessem coro ao meu canto/lamento:

Eu quero é botar meu bloco na rua/Brincar, botar pra gemer

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ou acho que sonhei, já que várias vezes eu sonho e no próprio sonho eu penso “eu já sonhei isso/com essa pessoa” e quando eu acordo eu reflito e chego à conclusão que não, que aquela fora a primeira vez que eu sonhara com aquilo/aquela pessoa. Mas é mais bonito acreditar que eu já sonhara com ela.

Surgiu então a menina com quem sonhei noutro dia. Ainda bem que se vestia do mesmo jeito que no outro sonho, pois sua voz era diferente, o rosto também, os trejeitos também, o nome também (mas eu não lembro qual era o nome). Eu levantei e cruzei o salão onde agora estávamos, peguei sua mão e a convidei para dançar.

Não era valsa, nem polca. Não era sequer uma rancheira. Era Asturias, tocada por um taciturno violeiro. E eu juro, ah! eu juro, que éramos o casal mais belo que já dançara qualquer música em qualquer salão. Éramos rodopios, saia girando, meu passo conduzindo a moça. Só nos assistiam gárgulas na escuridão. A música fazia-se infinita e aquele amor que eu sentia, que era febril e inconsequente e que poderia levar adiante aqueles giros eternamente, tornou-se triste e cansado e então eu vi: que ela já não era quem eu sonhara, que não havia música no salão, que tampouco era eu quem sonhava…

era eu, o último trompetista, solitário, a tocar a decadente marcha de carnaval que eu mesmo compusera, numa sarjeta enquanto o sol nascia. Esquecendo tudo e todos que antes ao meu lado estavam. Suados, amorfos, sorridentes. Era eu, o derradeiro homem a ver o derradeiro céu. Era eu, eternamente só, cantando

Se você jurar que me tem amor/Eu posso me regenerar

Soneto

18 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: – “Ai nada somos,
pois ela se morreu silente e fria…”
E pondo os olhos nela como pomos
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la,
Entre lírios e pétalas de rosa.

E os meus sonhos de amor serão defuntos…
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?”

Alphonsus de Guimaraens

vê, homem

1 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

tiveste bons sonhos, homem? acordaste serenamente? alegraram-te as cores do novo dia? e as notícias no jornal, são felizes?

sim, são. mesmo que falem de mortes e roubos, desastres e injustiças. são boas as notícias! elas te dizem: vê, homem, ainda está o mundo lá fora! vê, homem, as coisas continuam em seus lugares! vê que a noite não levou nada embora. vê, homem, este mundo é real: abraça-o!

pois que pena ser real! que mal serviço ao coração da gente querer tudo tão existente. a realidade te diminui, homem! não aceita o que ela diz! o mais humano é querer ser sobre-humano: faça-o! cospe na cara do jornalista que diz ‘assim foi’. esbraveja: vade retro! grita que ele não vai te aprisionar dizendo que é assim que é e é só assim que pode ser. liberta, homem, liberta!

mente, que isso te faz bem. mente, homem, que a mentira aviva a alma. conheço bem as almas. elas vivem em outros e muitos lugares. são mentiras. mentem, pois o que é a fantasia senão mentira? e sem a fantasia pode alguém viver? pode ser, sem fantasia, algo além de um carrancudo infeliz? um rancoroso malvado? um desalmado?

quando o jornalista te disser: vê, homem, é esta a verdade! tu dirás: vá longe com essa bobagem. peça dois goles de mentira, um dedo de falsidade. verás que dali nascerão todas as nossas histórias e alegrias. então teu coração estará feliz. abraça teu irmão e juntos bradem: às favas com a verdade! vê, homem, que aquele que te trouxer as notícias quer te prender a um mundo tedioso e acomodado. vê, homem, este é teu pior inimigo.

liberta, homem, liberta. sê feliz, homem.

(também aqui)